O nível de incerteza e expectativa em torno das tarifas de importação dos Estados Unidos, nesta terça-feira, 1º de abril, já configura uma vitória para o presidente dos EUA, Donald Trump, antes mesmo do anúncio do pacote de medidas previstas para a quarta-feira, 2, que ele designa como “Dia da Libertação”. As especulações sobre o conteúdo das medidas, que surgem horas antes do seu anúncio, atendem aos objetivos do presidente, que têm sido evidentes desde sua posse.
O presidente Trump parece favorecer a incerteza, uma estratégia que lhe confere uma vantagem nas negociações, ao manter os interlocutores sem clareza sobre suas intenções. Segundo análises, sua abordagem revela um comportamento estratégico, caracterizado por avanços e recuos calculados. São três os objetivos que podem ser identificados em suas ações: alterar a estrutura atual das tarifas internacionais, reduzir a dependência da produção chinesa e utilizar a arrecadação gerada pelas tarifas para refluir a indústria americana.
As tarifas atuais, que variam de 3% para as importações dos EUA a 10% para a China e 5% para a Europa, poderiam ser ajustadas por Trump ao longo de quatro anos. Além disso, ele busca um retorno à produção interna, destacando a imposição de tarifas como uma ferramenta para trazer de volta a indústria ao país. O governo visa também que a receita das tarifas, que pode alcançar US$ 600 bilhões anuais, sirva para subsidiar a reindustrialização, por meio de redução de impostos ou isenção de insumos.
Até o momento, Trump aplicou tarifas de 20% sobre produtos chineses, de 25% em aço e alumínio, e taxas equivalentes sobre produtos do Canadá e México em desacordo com o acordo de livre comércio. Uma nova tarifa de 25% sobre automóveis está prevista para entrar em vigor no dia 3 de abril. Contudo, muitos analistas ainda enfrentam dificuldades para estabelecer as principais direções de sua política comercial.
A cada novo dia, surgem novas informações que complicam essa análise. O secretário do Tesouro mencionou a aplicação de tarifas a um grupo de países que compõe uma parte significativa do comércio dos EUA, enquanto outros membros do governo afirmam estar considerando um número menor de países que representam o déficit comercial do país. Recentemente, o presidente mencionou que as tarifas poderiam ser aplicadas a todos os países, o que afastou a ideia de uma estratégia mais focada.
Diante dessa confusão, as especulações variam entre percentuais de tarifas que poderiam ser entre 10% e 20%, sem clareza sobre a aplicação em diferentes nações. O efeito dessa desinformação torna desafiador calcular as consequências das tarifas na economia americana e global, o que só será possível após o anúncio oficial. No entanto, sinais de preocupação já estão presentes.
Na última segunda-feira, o mercado de ações dos EUA sofreu uma queda significativa, encerrando um período de cinco trimestres de alta. As previsões de crescimento econômico para o primeiro trimestre indicam um possível encolhimento da economia americana, levando consumidores e empresas a adotarem uma postura mais cautelosa. O presidente parece desconsiderar os riscos de desaceleração econômica que suas políticas tarifárias podem acarretar, insistindo que qualquer dano temporário será compensado no futuro.
Apesar das preocupações de analistas sobre um possível impacto inflacionário, o governo acredita que a guerra comercial não terá um efeito significativo nessa área. A experiência anterior com tarifas em seu primeiro mandato, por exemplo, não gerou uma inflação acentuada. No entanto, a situação atual é diferente, pois as tarifas estão mais amplas e afetam maior volume de produtos e países.
Estudos indicam que as novas tarifas terão um impacto direto sobre os consumidores americanos, principalmente as famílias com rendas mais baixas, que sofrerão de maneira desproporcional. Uma recente análise sugere que as tarifas amplas poderiam custar, em média, entre US$ 3.400 a US$ 4.200 em perda de poder de compra por família. Para contrastar essas projeções, a administração Biden ressalta a expectativa de arrecadação significativa com as tarifas, como uma conquista para o país.
Economistas da área apontam que tarifas, em essência, representam impostos que arredondam a arrecadação do governo, o que pode afetar tanto indivíduos quanto empresas. A guerra comercial é reconhecida como uma realidade iminente, uma vez que as tarifas impostas pelos EUA cresceram drasticamente desde o início da nova gestão. O contexto atual apresenta um desafio, uma vez que, se as consequências das tarifas se mostrarem mais severas do que o previsto, o presidente possui a flexibilidade para modificar sua abordagem a qualquer momento, influenciando diretamente as regras do jogo econômico.