Os pequenos camarões do gênero Hippolyte possuem a habilidade de alterar sua coloração para se camuflar entre as algas em que habitam, a fim de evitar predadores. Dependendo do tipo de alga em que se encontram, esses crustáceos podem apresentar colorações vermelha, verde, marrom ou transparente.
Uma pesquisa publicada no Journal of Animal Ecology revela, pela primeira vez, como esses camarões interagem com algas invasoras. Os resultados indicam que a camuflagem ocorre também em algas marinhas de outros oceanos, com as quais os camarões não evoluíram conjuntamente.
Os pesquisadores, incluindo cientistas brasileiros e britânicos, investigaram como a espécie de camarão-camaleão (Hippolyte varians), que habita praias da Europa, se relaciona com duas algas exóticas, sendo uma originária da Ásia e a outra da Austrália. Isso se dá com uma espécie que mede cerca de 3 centímetros e é evolutivamente similar ao camarão-carnavalesco (Hippolyte obliquimanus), encontrado na costa paulista.
Num dos experimentos, mesmo ao se deparar com algas nativas e exóticas, o camarão-camaleão escolhe aquela que proporciona um melhor disfarce, permitindo que se esconda. Esse estudo foi realizado durante o pós-doutorado de um dos autores no Centro de Ciências Naturais e Humanas da Universidade Federal do ABC, com apoio financeiro da FAPESP.
As coletas e experimentos ocorreram em um estágio na Universidade de Exeter, no Reino Unido, onde os camarões e as algas foram recolhidos em poças formadas pela maré em rochas de duas praias. Em ambiente de laboratório, os camarões foram colocados em estruturas com duas opções de algas, uma nativa e outra exótica, para observar suas escolhas.
Uma das algas exóticas, proveniente da Ásia, é uma espécie de sargaço que, nos últimos anos, tem se proliferado em várias regiões da Europa, impactando os habitats de espécies nativas. Apesar de causar problemas, essa alga tem se mostrado um abrigo eficaz para os camarões.
Observações nos experimentos mostraram que, na maioria dos casos, os camarões optaram por uma das algas disponíveis e permaneceram nela durante o teste. Não houve uma preferência clara pelas algas nativas em geral, mas pela que proporcionava melhor camuflagem. Quando compararam a alga nativa verde. com o sargaço exótico, os camarões não mostraram preferência, mas quando a escolha era entre a alga nativa vermelha e o sargaço marrom, a maioria escolheu o sargaço.
Os pesquisadores acreditam que, se a cor não se alinha à alga nativa, a estrutura da alga invasora pode oferecer melhores condições de proteção. Enquanto a alga verde é mais achatada e folhosa, o sargaço tem uma estrutura tridimensional mais complexa, possivelmente oferecendo mais segurança contra predadores.
Além disso, as algas nativas mudam de acordo com as estações, e em períodos de escassez, os camarões podem optar pelo sargaço, que permanece disponível ao longo do ano. A mudança de cor dos camarões-camaleão pode levar até 30 dias, sendo mais rápida da coloração vermelha para a verde. Isso pode estar relacionado aos pigmentos das células que os colorem, conhecidos como cromatóforos.
Pesquisas anteriores indicam que os camarões vermelhos possuem todos os pigmentos necessários para mudar a coloração, enquanto os verdes precisam adquirir pigmento vermelho, exigindo mais tempo e energia. É possível que esses camarões necessitem consumir algas vermelhas ou rosas para adquirir os pigmentos necessários.
Entretanto, muitas perguntas permanecem em aberto sobre essa interação complexa. Uma questão diz respeito à maneira como os camarões reconhecem as algas, com estudos sugerindo que a forma das algas pode ser um fator, embora a forma de escolha visual não esteja completamente comprovada. Pesquisas adicionais estão sendo realizadas para determinar se as algas emitem sinais químicos que possam ser percebidos pelos crustáceos, bem como investigar se a presença de poluentes na água influencia essa percepção.
Embora a interação com as algas exóticas não pareça estar prejudicando a capacidade de camuflagem da espécie no momento, os impactos de longo prazo da presença dessas algas invasoras ainda não são conhecidos. Espécies invasoras são reconhecidas por causarem danos significativos aos ecossistemas, e a monitoração dessas interações é fundamental para uma melhor compreensão.