O dia 2 de abril será marcado pela implementação de uma série de novas tarifas projetadas para proteger a indústria americana. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, descreveu essa data como um “Dia da Libertação”. Às 17h, o presidente deve revelar publicamente uma lista abrangente de tarifas sobre importações.
Essa restrição às importações americanas por meio de tarifas comerciais já havia sido uma abordagem durante o primeiro mandato de Trump, com foco em países como China, Canadá e México. Uma nova fase de uma guerra comercial começou a se formar mesmo antes da atual campanha presidencial. Para Trump, as tarifas são uma maneira de incentivar a “reindustrialização” dos Estados Unidos, valorizar a produção interna e prejudicar economicamente concorrentes estratégicos.
Desde o início do atual mandato, a questão das tarifas tem dominado os noticiários. Inicialmente, China, Canadá e México foram as nações mais afetadas, mas a situação deve se expandir. Recentemente, Trump indicou a intenção de impor tarifas sobre “todos os países” com os quais os Estados Unidos têm relações comerciais, incluindo importações de veículos, aço e bebidas alcoólicas da Europa. Espera-se também que países que compram petróleo e gás da Venezuela sejam afetados.
O presidente alega que as tarifas previstas terão um impacto imediato, mas ainda há incertezas quanto à extensão e intensidade das medidas que serão anunciadas. Essa falta de clareza tem gerado nervosismo nos mercados financeiros, com as bolsas americanas apresentando quedas significativas em 2025. Economistas do UBS alertam que seriam necessárias 2,5 milhões de tarifas individuais para estabelecer um regime tarifário recíproco completo, o que torna improvável sua implementação rápida.
Diversos líderes europeus definem o atual cenário como uma “desordem econômica”. A maneira desconexa e vaga como as propostas tarifárias estão sendo comunicadas suscita dúvidas sobre a seriedade das intenções de Trump, que pode estar usando essa estratégia para renegociar acordos comerciais.
Investidores e gestores de empresas expressam preocupação com a incerteza prevalente, destacando que a forma fragmentada de apresentação das tarifas está exacerbando essa instabilidade. Uma pesquisa da Universidade de Michigan sugere que os consumidores americanos preveem uma inflação de 5% no próximo ano, tendo em vista que as tarifas podem encarecer produtos no mercado interno.
Com o avanço das tarifas, observou-se um aumento nas pressões inflacionárias, complicando a situação para os bancos centrais, o que resulta em uma diminuição das expectativas de cortes na taxa de juros nos Estados Unidos. No contexto brasileiro, especialistas indicam que a economia nacional é relativamente mais fechada, o que poderia oferecer alguma resiliência frente às novas tarifas. No entanto, essa característica se deve em grande parte às tarifas já impostas pelo Brasil.
Estima-se que, caso as tarifas recíprocas sejam implementadas, o Brasil poderia enfrentar uma taxação próxima a 20% em uma variedade de produtos. O governo brasileiro ainda não anunciou medidas de retaliação, embora a comunicação oficial sugira essa possibilidade. Especialistas alertam que retaliar pode ser complicado devido à alta dependência das exportações brasileiras, o que pode resultar em um aumento dos problemas inflacionários.
A menor participação do comércio exterior no PIB não significa que a economia brasileira esteja imune a choques. O superávit comercial do ano passado, que alcançou US$ 74,5 bilhões, foi crucial para manter o equilíbrio da oferta de dólares na economia. Portanto, mudanças significativas no comércio podem impactar diretamente a taxa de câmbio e a inflação.
A composição das exportações também influencia o impacto das tarifas. Em 2024, o Brasil exportou US$ 40,3 bilhões para os Estados Unidos e importou US$ 40,5 bilhões. Os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, representando 12% das exportações totais, atrás apenas da China. Projeções indicam um impacto de até US$ 15 bilhões na balança comercial.
Entretanto, as exportações para a China estão majoritariamente relacionadas à indústria extrativista e agronegócios, enquanto a maior parte dos produtos enviados aos Estados Unidos provém da indústria de transformação, a qual possui maior valor agregado e impacto no desenvolvimento econômico. Esses produtos são os que mais provavelmente sofrerão com as novas tarifas, embora isso não isente o agronegócio brasileiro das repercussões.
Diante da globalização, efeitos comerciais são inevitáveis. Especialistas consideram que o Brasil poderá sentir os impactos de forma menos severa que outras nações, podendo até beneficiar-se em termos de fluxo de capital estrangeiro. O verdadeiro impacto, no entanto, só será mensurável após a divulgação das políticas tarifárias do presidente Trump.