O “Dia da Libertação”, designação dada pelo presidente dos Estados Unidos a um evento realizado em 2 de abril nos jardins da Casa Branca, teve ampla repercussão em relação às novas diretrizes da política comercial americana, destacando-se por sua relevância para a economia global, apesar das declarações enfáticas de Trump. A nova medida, que incorpora tarifas mínimas recíprocas de 10% para mais de 200 países com os quais os EUA mantêm relações comerciais, representa um aspecto importante das mudanças propostas, mas seus efeitos mais profundos vão além dessa alteração.
O primeiro impacto significativo desta mudança é o enfraquecimento da Organização Mundial do Comércio (OMC), criada por iniciativa dos EUA após a Segunda Guerra Mundial para regular o comércio internacional. Esse organismo já vinha sendo desconsiderado por administrações anteriores e perdeu relevância ao longo da guerra comercial entre os EUA e a China, iniciada em 2019. As novas regras anunciadas pelo presidente americano não apenas relegam a OMC a um segundo plano, mas também prenunciam uma guerra comercial global que poderá ter consequências imprevisíveis para a economia mundial.
Especialistas em política comercial, como Eswar Prasad, alertam que as medidas adotadas por Trump sinalizam o fim de uma era de comércio internacional livre, baseada em um sistema de regras que os próprios Estados Unidos ajudaram a estabelecer. Ao invés de buscar melhorias nas normas que beneficiariam os parceiros comerciais americanos, o presidente optou por desmantelar a estrutura existente para o comércio global.
O discurso de Trump, repleto de advertências a respeito de barreiras comerciais criadas por outros países, sugere uma nova era de confrontação econômica entre os Estados Unidos e o resto do mundo. Ele definiu o déficit comercial como uma “emergência nacional”, levantando a questão de segurança nacional como justificativa para suas ações, e deixou claro que o governo americano irá calcular tarifas com base em desvios nas práticas comerciais de outros países.
Os efeitos diretos das novas tarifas incluem uma taxa de 10% para o Brasil, enquanto países como a União Europeia enfrentarão tarifas de até 20% e a China poderá ter sobretaxas conjuntas que chegam a 34%. O governo brasileiro emitiu um comunicado criticando a decisão, ressaltando que a nova tarifa adicional não condiz com a realidade do superávit comercial que os Estados Unidos têm mantido com o Brasil nos últimos 15 anos, que totaliza cerca de US$ 410 bilhões.
Durante o mesmo período em que o presidente americano anunciava suas novas tarifas, a Câmara dos Deputados do Brasil aprovaram um projeto de lei que visa criar mecanismos para que o governo brasileiro responda a barreiras comerciais que prejudiquem a competitividade de seus produtos. Esta iniciativa representa uma contramedida às políticas tarifárias dos EUA e aguarda sanção presidencial.
Em uma nota irônica, Trump sugeriu que os países que impõem tarifas de importação superiores às americanas devem criar seus produtos nos Estados Unidos. Isso indica uma postura agressiva e provocativa diante das relações comerciais internacionais.
Estudos realizados por especialistas do Cato Institute indicam que as justificativas por trás da política comercial americana são frágeis e contraditórias. Tal abordagem pode relembrar o histórico do Smoot-Hawley Tariff Act, de 1930, que gerou uma guerra comercial global e agravou a Grande Depressão.
Durante o anúncio das novas tarifas, Trump destacou os altos impostos sobre produtos americanos aplicados por outros países, mas ignorou as tarifas significativas impostas pelos EUA em certos setores, como alimentos e vestuário, que visam proteger a indústria nacional. As taxas sobre tabaco e utensílios importados também não foram mencionadas.
Com a nova política, a possibilidade de retaliações por parte de outros países é uma preocupação crescente, especialmente considerando que os serviços representam a maior parte da economia americana. Os Estados Unidos lideram as exportações de serviços globalmente, e este setor gerou mais de US$ 1 trilhão no último ano, representando um superávit comercial significativo.
Outros países têm a capacidade de usar essa relação para suas próprias estratégias de retaliação. Por exemplo, a União Europeia pode desenvolver políticas para restringir a entrada de serviços americanos no continente. Isso pode ter um efeito direto sobre empresas de tecnologia dos EUA que operam na Europa.
Além disso, a União Europeia tem ferramentas políticas à disposição para expandir sua retaliação e impactar importações de serviços dos EUA, incluindo medidas como o chamado Instrumento Anticoerção, que poderia incluir tarifas e restrições ao comércio de serviços.
Em conclusão, a nova política comercial dos Estados Unidos não apenas altera o cenário das transações comerciais, mas também pode provocar uma escalada nas tensões globais, impactando diversos setores e criando um ambiente econômico incerto.