Durante o desfile Outono-Inverno 2025 na Semana de Moda de Paris, o estilista holandês Duran Lantink apresentou uma coleção que desafiou convenções tradicionais com suas criações excêntricas. O evento ocorreu em um ambiente que lembrava um escritório, evocando a atmosfera do thriller de ficção científica “Ruptura”. As silhuetas apresentaram proporções distorcidas e estilos ousados, incorporando estampas animais inusitadas e jeans provocativos. Contudo, foram os torsos protéticos que se destacaram durante a apresentação. Inicialmente, a modelo Mica Argañaraz chamou a atenção ao exibir um tanquinho esculpido, seguido por Chandler Frye, um modelo masculino que usava um par de seios grandes e voluptuosos. Os clipes dessas ousadias de Lantink rapidamente se tornaram virais nas redes sociais, gerando debates sobre a fluidez de gênero e a representação da feminilidade. O estilista comentou que sua intenção era brincar com a ideia de humanos como bonecas, destacando sua apreciação por mulheres como figuras de ação.
Essa abordagem também se alinha a uma tendência crescente nas passarelas, onde o uso de próteses tem se tornado mais comum. Nos últimos desfiles, marcas como Martine Rose, Collina Strada e Balenciaga utilizaram implantes, máscaras e maquiagens em 3D para transformar modelos em seres fantásticos como animais, alienígenas e ciborgues. Um exemplo notável é a marca Avavav, de Estocolmo, que criou uma peça vestível imitando o bumbum de Kim Kardashian em silicone. Especialistas na área, como Tanya Noor, destacam que os estilistas estão explorando próteses para questionar os padrões de beleza estabelecidos e para falar sobre transformação e identidade, enriquecendo o discurso cultural.
A história das próteses é antiga, remontando ao Egito Antigo, onde foram utilizadas como ajuda para locomoção. Com o passar dos séculos, as inovações levaram ao desenvolvimento de membros artificiais mais avançados, especialmente após eventos como a Guerra Civil Americana, quando foram criadas pernas de madeira com proteção de borracha. A utilização de próteses na arte e entretenimento também se tornou relevante. No cinema, no final do século XIX, elas eram confeccionadas a partir de materiais simples, como borracha e cera. A década de 1930 trouxe a revolução com a invenção do látex de espuma, tornando máscaras de borracha amplamente disponíveis, e permitindo que artistas conseguissem criar rostos mais realistas.
Além disso, as próteses se tornaram uma parte fundamental da performance drag, com artistas utilizando dispositivos como seios artificiais e enchimentos para explorar diferentes expressões de feminilidade. Atualmente, as inovações em próteses são mais impressionantes do que nunca. O filme de terror “A Substância”, previsto para ser lançado em 2024, ganhou um Oscar pela utilização de próteses por Demi Moore e Margaret Qualley, que, ao mesmo tempo, geraram debates sobre questões de saúde e efeitos adversos.
As próteses também têm se integrado à moda no tapete vermelho. Um exemplo recente é a transformação da artista Doja Cat no Met Gala 2023, onde ela incorporou elementos do famoso gato de Karl Lagerfeld, utilizando um vestuário personalizado e próteses faciais criadas por Malina Stearns. Stearns, que tem trabalhado com diversos artistas, já criou composições igualmente intrigantes para outros músicos. Em contextos de moda, as próteses têm sido usadas não apenas para questionar normas de gênero, mas também para expandir as possibilidades criativas.
Embora o látex continue sendo um material predominante, a tecnologia de escaneamento e impressão 3D está possibilitando criações ainda mais complexas. As influências entre moda e entretenimento têm se intensificado, refletindo uma nova era em que as roupas se unem a elementos de adereços e arte. No desfile de Primavera-Verão 2019 da Balenciaga, por exemplo, foram criadas características faciais exageradas, enquanto outros projetos artísticos, como o da artista visual Nadia Lee Cohen, envolvem transformações em uma variedade de personagens por meio de próteses e figurinos.
A estilista Hillary Taymour, da Collina Strada, comentou sobre o uso de próteses, que foram feitas à mão para parecerem orgânicas, buscando transformar modelos em híbridos humano-animais e refletindo uma nova narrativa sobre a relação entre humanos e o planeta. Essa busca por uma estética mais profunda e integrada reflete, de fato, uma mudança nas considerações sobre beleza na moda. Desfiles recentes também têm apresentado propostas que desafiam expectativas, visando um diálogo sobre normas de beleza predominantes.
Embora as transformações por meio de próteses tenham um caráter artístico, elas também refletem o aumento de procedimentos estéticos para melhorar a aparência. Alguns designers, como Martine Rose, têm explorado essa questão apresentando modelos com narizes artificiais como uma forma de desafiar padrões convencionais de beleza. Entretanto, o uso de próteses tende a ir além da mera estética, estabelecendo uma exame mais crítico sobre a imagem corporal.
Com o aumento do interesse por essas criações na indústria da moda, há um potencial para as próteses se expandirem para outras áreas do corpo e proporcionar uma narrativa de transformação mais dinâmica e abrangente. As inovações tecnológicas, com o uso de robótica e animação, poderiam introduzir novos conceitos, como roupas que reagem ao movimento e à respiração. A moda, em sua essência, é uma expressão de fantasia e também de identidade, levando designers a reimaginarem o que é possível para o corpo humano.