A decisão do governo dos Estados Unidos de estabelecer tarifas de até 25% sobre produtos europeus provocou um renovado debate na Europa sobre a necessidade de diversificar parcerias comerciais. Nesse contexto geopolítico em mudança, a França — que havia sido uma das principais opositoras ao acordo entre a União Europeia e o Mercosul — começou a demonstrar uma possível alteração em sua postura.
Recentemente, o ministro francês para a Europa, Benjamin Haddad, promoveu uma reunião virtual com representantes de dez países da União Europeia para debater os termos do tratado comercial com o bloco sul-americano. A iniciativa reflete a urgência em buscar alternativas em resposta às barreiras comerciais instauradas pelos Estados Unidos. De acordo com o gabinete de Haddad, “todos os participantes concordaram com a importância de diversificar as parcerias comerciais”.
Entretanto, essa reaproximação não implica automaticamente em uma adesão ao tratado. A França reiterou a necessidade de incluir uma cláusula de escape automática para produtos agrícolas, que funcionaria como uma medida emergencial para suspender importações em caso de um aumento repentino que poderia ameaçar os mercados europeus. O acordo atual oferece uma cláusula geral, mas considerada insuficiente pela França.
Apesar da abertura ao diálogo, o governo francês mantém algumas reservas. O embaixador da França no Brasil, Emmanuel Lenain, afirmou que as tarifas americanas não alteram, por si só, a posição do país em relação ao acordo. Ele destacou que “o impacto do tarifário sobre os produtos europeus é maior do que os possíveis ganhos com o Mercosul”, lembrando que os fluxos comerciais entre a Europa e os EUA são significativamente mais altos do que os com as nações sul-americanas.
No ano de 2024, estima-se que a União Europeia tenha exportado cerca de US$ 606 bilhões para os EUA, enquanto as vendas para o Mercosul totalizaram 55,7 bilhões de euros em 2023. A Comissão Europeia projeta que o acordo com o Mercosul poderia aumentar as exportações em até 25 bilhões de euros até 2035. O presidente francês, Emmanuel Macron, tem adotado uma postura mais rigorosa e sugeriu que empresas europeias considerem suspender investimentos nos EUA até que o alcance das tarifas seja esclarecido. Ele também defende uma resposta conjunta por parte dos países da União Europeia.
Apesar das resistências encontradas, a reunião recente entre a França e os países da UE indica uma busca por um caminho intermediário que permita avançar nas negociações com o Mercosul, sem descuidar das exigências ambientais e da proteção ao setor agrícola europeu. O atual cenário, caracterizado pelo protecionismo dos EUA, pode servir como um catalisador para as discussões em Bruxelas.