4 abril 2025
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Limites das Plataformas na Reprodução de Conteúdos: O Que Você Precisa Saber

Em 2016, Hayao Miyazaki, co-fundador e diretor do Studio Ghibli, expressou sua opinião de que a arte gerada por máquinas representava um “insulto à vida” e afirmou que não integraria tal tecnologia em seu trabalho. Quase uma década após essa declaração, no final de março de 2025, a ferramenta de geração de imagens do ChatGPT, agora disponível gratuitamente, foi utilizada globalmente por usuários que transformaram fotos em ilustrações inspiradas na estética Ghibli.

Fido Nesti, um quadrinista brasileiro e autor premiado da adaptação em HQ de “1984”, destacou a questão do uso não autorizado de inteligência artificial, afirmando que tal prática viola direitos autorais e resulta em imagens efêmeras que rapidamente são esquecidas nas redes sociais, onde a origem das criações muitas vezes passa despercebida.

Ainda nesse cenário, um relato de Miyazaki sobre o processo criativo de um de seus filmes se tornou viral. Em uma entrevista ao canal NHK World Japan, ele revelou que levou 1 ano e 3 meses para produzir uma cena de apenas quatro segundos de “Vidas ao Vento”, enfatizando que, apesar da brevidade, o esforço valeu a pena.

A popularização dessa tendência fez com que o ChatGPT alcançasse 1 milhão de usuários em apenas uma hora, conforme declarado pelo CEO Sam Altman. De acordo com dados da SensorTower, divulgados pela Reuters, a receita proveniente de assinaturas e downloads do aplicativo atingiu um número recorde.

Além das potenciais questões éticas relacionadas ao uso da estética Ghibli, a falta de reivindicação dos direitos autorais por parte do estúdio pode resultar em lucros para a OpenAI provenientes do trabalho de terceiros sem compensação. Alexander Coelho, especialista em direito digital e proteção de dados, comentou que estamos vivendo um período em que a tecnologia avança mais rapidamente do que a legislação consegue se adaptar.

O especialista também enfatizou a importância de que os usuários leiam atentamente os termos de uso das plataformas, pois, inadvertidamente, podem se expor a riscos legais ou contribuir para práticas com implicações éticas e jurídicas complexas. Vanderlei Garcia Jr, especialista em Propriedade Intelectual e IA, alertou sobre os riscos que os internautas enfrentam ao compartilhar suas fotos nas ferramentas de geração de imagens, ressaltando que os usuários podem acabar cedendo direitos sobre o uso de suas imagens sem sua plena consciência.

Coelho destacou a discrepância de informação, questionando quantos usuários realmente leem os termos de uso e entendem o que estão cedendo. Para criadores e marcas, Bruno D’Angelo, CEO de uma startup especializada em propriedades intelectuais, recomenda o registro de conteúdos como uma forma de proteção contra plágios gerados por plataformas de IA. Ele ressaltou a necessidade de regulamentação para abordar infrações nas áreas de IA, redes sociais e influenciadores, o que requer fiscalização e medidas adequadas.

Enquanto isso, existem artistas que utilizam a inteligência artificial de forma ética e criativa. A artista brasileira Vanessa Rosa, reconhecida internacionalmente, é uma dessas profissionais. Recentemente, seu projeto “Pequenos Marcianos” foi selecionado pela Nvidia para uma galeria virtual. Ela mencionou que, embora receba críticas sobre seu uso de IA, a maior parte de seu trabalho ocorre em contextos onde a utilização de tecnologias desse tipo é comum.

Rosa também abordou o tema do Studio Ghibli, lembrando que em um texto publicado em 2021, já havia discutido as questões de autoria na era da inteligência artificial, utilizando o estúdio como exemplo. Ela compartilhou a visão de que muitos artistas proeminentes na área de arte e IA não a inspiram, defendendo o valor do movimento de código aberto como um contrapeso ao domínio das grandes empresas de tecnologia.

Porém, a artista questiona como se pode definir ética no contexto da inteligência artificial, considerando que as noções tradicionais de autoria e direitos autorais são problemáticas nesse novo cenário. Ela acredita que muitas transformações estão ocorrendo simultaneamente e que a discussão em torno desse assunto está finalmente ganhando relevância no público em geral.

Sobre a recente tendência relacionada a Ghibli, Rosa sugeriu que essa poderia, na verdade, servir para promover o estúdio. Nas plataformas como TikTok e Instagram, quanto mais conteúdo é gerado em torno de uma tendência, melhor para o criador original, e ela defendeu a implementação de mecanismos que recompensem artistas quando suas estéticas se tornam virais.

Os desafios que surgem na interseção entre tecnologia e arte não desmotivam Vanessa. Ela mencionou que nunca imaginou que seria capaz de produzir filmes de animação ou criar mundos interativos, mas alcançou reconhecimento internacional com seu trabalho. Sua animação “Little Martians: Dear Human, My Muse” foi exibida em 30 festivais cinematográficos internacionais, conquistando 10 prêmios, incluindo o de Melhor Diretora de Curta-Metragem no Festival de Cinema de Cannes.

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