A formação continental da Terra recebeu uma nova interpretação a partir de recentes descobertas científicas. Pesquisadores identificaram evidências de que a “impressão digital química” característica dos continentes modernos já estava presente na crosta terrestre primitiva, que se formou há aproximadamente 4,5 bilhões de anos. Este estudo, publicado na revista Nature, challenge a noção amplamente aceita de que a tectônica de placas, que implica no movimento das grandes estruturas rochosas da superfície terrestre, seria um requisito necessário para a formação das características químicas que distinguem os continentes.
Por várias décadas, a comunidade científica se propôs a investigar o início da tectônica de placas, analisando rochas antigas em busca de uma baixa concentração de nióbio, que é considerado uma “assinatura” da crosta continental. Entretando, diferentes grupos de pesquisa chegaram a resultados diversos e, em alguns casos, contraditórios. Um dos pesquisadores, ao refletir sobre os objetivos das investigações, questionou se as perguntas feitas eram realmente as adequadas.
A equipe de pesquisa desenvolveu modelos matemáticos que simulam as condições da Terra em seus primórdios, durante a formação de seu núcleo, quando a superfície era predominantemente um oceano de rocha derretida. Os resultados obtidos revelaram que, nas condições iniciais do planeta, o nióbio teria sido atraído de forma natural para o núcleo metálico em formação, resultando em uma baixa concentração desse elemento na crosta superficial.
Os cientistas agora propõem um novo modelo para a origem dos continentes. Denominada “protocrusta hadeana”, a primeira crosta terrestre já apresentava as características químicas associadas aos continentes atuais. Essa crosta primordial foi posteriormente fragmentada e remodelada por intensos impactos de meteoros. Regiões com uma maior concentração de material começaram a se acumular, formando os primeiros contornos dos continentes. Essa pesquisa evidencia que as assinaturas químicas observadas na crosta continental foram geradas nos estágios mais antigos da história terrestre, independentemente do comportamento superficial do planeta naquele período.
Além de redefinir o entendimento sobre a evolução geológica da Terra, essas descobertas proporcionam novas perspectivas para a exploração de planetas distantes. Os pesquisadores sugerem que a tectônica de placas pode ter operado inicialmente em ciclos, motivados por impactos meteoríticos, até se estabelecer como um processo contínuo há cerca de 3,8 bilhões de anos, quando o bombardeio meteórico começou a diminuir significativamente.
Essas novas evidências ajudam a esclarecer um dos principais enigmas da geologia: a razão pela qual a assinatura química dos continentes surge consistentemente em rochas continentais de diferentes idades e origens. Especialistas acreditam que estamos na presença de um verdadeiro paradigma que poderá transformar a concepção dos processos geológicos que moldaram o planeta durante seus primeiros momentos de existência.