Nos dias que antecedem uma eleição, as redes sociais transformam-se em um espaço de intenso debate político. A disseminação de mensagens ocorre de forma rápida, alterando percepções e, potencialmente, intenções de voto. Pesquisas levantam a questão sobre a eficácia de campanhas robustas nas redes sociais em alterar resultados eleitorais. Para investigar essa hipótese, foi desenvolvido um modelo matemático no Centro de Pesquisa, Inovação e Difusão em Neuromatemática (CEPID NeuroMat), da Universidade de São Paulo (USP).
A iniciativa para este estudo surgiu das experiências observadas nas eleições presidenciais de 2018 e 2022 no Brasil, que apresentaram discrepâncias significativas entre as pesquisas eleitorais realizadas pouco antes das votações e os resultados finais. Uma das teorias sugeridas é que campanhas intensivas nas redes sociais podem ter causado mudanças rápidas nas intenções de voto dos eleitores.
Em colaboração com um professor da instituição, um modelo que simula os efeitos das redes sociais em um ambiente de polarização política foi desenvolvido. Este modelo é uma adaptação do modelo de redes neurais Galves-Löcherbach. O objetivo da nova modelagem é descrever redes sociais compostas por “bolhas sociais”, onde grupos de usuários se influenciam mutuamente e têm pouca interação com indivíduos fora desses grupos. Esse fenômeno, conhecido como “filter bubble”, refere-se à forma como os algoritmos das plataformas digitais limitam a exposição a pontos de vista diversos.
O estudo analisa o comportamento destas redes em contextos de alta polarização, onde os usuários tendem a estar mais suscetíveis às opiniões predominantes dentro de suas bolhas sociais. A publicação, que apresenta os resultados da investigação, revela que os indivíduos que compõem a rede social, conforme o modelo, rapidamente alcançam um consenso e começam a expressar opiniões convergentes, mesmo que inicialmente apresentassem divergências.
Esse consenso, uma vez estabelecido, mantém-se por um período prolongado, mas eventualmente se desintegra de forma imprevisível, levando a uma nova formação de consenso em direções opostas. Esse processo é caracterizado pelo conceito de metaestabilidade, utilizado na física para descrever estados de aparente estabilidade que, não obstante, podem sofrer mudanças súbitas.
Além do fenômeno natural de desintegração de consenso, a pesquisa destaca que a introdução de um contraponto pode ser a estratégia mais eficaz para desafiar um discurso dominante e gerar um novo consenso. Nesse sentido, a polarização intensifica a velocidade com que os consensos se formam; quanto mais polarizada a rede, menos tempo é necessário para o surgimento desse consenso.
Mudanças abruptas de opinião podem ocorrer também devido à inserção de um grande volume de opiniões manipuladas para favorecer uma ideologia específica. Em contextos reais, isso pode incluir a atuação de influenciadores digitais ou bots que direcionam a opinião pública.
Portanto, ações externas podem direcionar a construção de consensos nas redes sociais. As campanhas políticas que utilizam essa lógica algorítmica das plataformas sociais podem aumentar a probabilidade de formação de consensos entre os usuários. Essa dinâmica pode explicar a ineficácia de pesquisas eleitorais em prever resultados finais quando campanhas agressivas ocorrem na proximidade do pleito.
As conclusões deste estudo destacam a importância de compreender como as redes sociais influenciam processos democráticos. Se campanhas digitais têm o poder de mudar rapidamente as intenções de voto, é crucial que reguladores e pesquisadores monitorem essas dinâmicas para assegurar a transparência e a integridade do processo eleitoral.
A investigação ainda requer um aprofundamento estatístico para confirmar que o modelo proposta elucida adequadamente as dinâmicas eleitorais brasileiras. Além disso, é fundamental realizar análises quantitativas do impacto dessas interações em diversas situações eleitorais e encontrar maneiras de reduzir influências artificiais nas decisões dos eleitores. Com as redes sociais emergindo como fontes primárias de informação política, entender esses fenômenos é essencial para a saúde da democracia.