Em um período inferior a dois meses desde que o presidente dos Estados Unidos mencionou pela primeira vez a ideia de “tarifas recíprocas” para seus parceiros comerciais, o Brasil teve uma mudança significativa em sua classificação nas relações comerciais com os EUA, sendo removido da lista dos chamados “Dirty 15” e passando a integrar o grupo dos “Clean Three”. Originalmente, o Brasil figurava entre 15 países considerados pela administração americana como “feios, sujos e malvados”, devido a suas altas tarifas e práticas comerciais consideradas desleais, como manipulação cambial e barreiras não tarifárias. Com um esforço diplomático, o país terminou por se alinhar aos três “limpinhos e cheirosos” — uma referência a nações com as quais os Estados Unidos têm superávits robustos no comércio.
Além do Brasil, o Reino Unido e a Austrália também foram considerados parte desse grupo. As tarifas impostas a esses países são de 10%, o que representa a menor taxa aplicada por Trump, especialmente quando comparada às tarifas significativas impostas à União Europeia, China e à maioria das nações asiáticas. As mudanças na postura americana podem ser atribuídas a três principais desenvolvimentos, conforme observado por fontes do governo e do setor privado.
Primeiramente, foi estabelecido um canal de diálogo que antes não existia. Esse processo começou com uma conversa telefônica entre o vice-presidente brasileiro e o secretário de Comércio dos EUA. Esse contato inicial possibilitou o início de interações, que se estenderam a outros níveis do governo brasileiro e americano, criando uma nova dinâmica nas relações comerciais. Antes desse contato, não havia comunicações de alto nível ou entre as equipes técnicas, o que gerou um clima de pessimismo em Brasília até o Dia da Libertação, quando houve uma mudança visível nas expectativas.
Em segundo lugar, a influência do setor privado e de alianças corporativas foi um fator decisivo. A maior parte do comércio entre Brasil e Estados Unidos ocorre de maneira intrafirma, onde subsidiárias americanas no Brasil remetem produtos para suas matrizes nos EUA. A Câmara Americana de Comércio no Brasil apresentou argumentos à administração norte-americana, destacando o superávit significativo que o Brasil gera para os Estados Unidos no comércio de bens, além de sua relevância como mercado para exportações de serviços. A comunicação desses pontos demonstrou que tarifas adicionais sobre produtos brasileiros poderiam prejudicar as próprias empresas americanas operando no Brasil.
Por fim, o embaixador brasileiro em Washington, Maurício Lyrio, recentemente iniciou uma série de reuniões com entidades e representantes do governo dos EUA, onde apresentou os argumentos do Brasil de forma detalhada. Ele se reuniu com representantes do Departamento de Comércio e com o sherpa americano para o G20, além de um importante encontro na Casa Branca. O embaixador buscou reforçar a ideia de que o Brasil deve ser visto como parte da solução, e não como parte do problema em termos de comércio, destacando a relação comercial favorável que existe entre os países.
O resultado dessas negociações culminou em uma tarifa de 10% idêntica à aplicada a outros países, o que gerou um alívio nas autoridades brasileiras e no setor privado. A comunicação sugere que o governo do Brasil está otimista quanto à possibilidade de renegociar tarifas e continuar as discussões para ajustar as condições comerciais com os Estados Unidos, numa época em que há uma mudança perceptível no sistema comercial global, com uma tendência crescente para negociações bilaterais.